WTF Dois Patinhos na Lagoa - Nem só de usuários vive o WTF….

Publicado em May 16, 2007 – 2:34 pm | por GraveHeart |

OK, chega de falar dos funcionários, e de casos recentes: vamos falar um pouco das pessoas que já trabalharam comigo.

Sempre que comento com alguém sobre as burradas dos meus usuários, eu faço questão de ressaltar que não tenho nada contra pessoas que NÃO TEM como saber operar um computador. Não me importo de tirar as dúvidas da secretária, que tem mais de 40 anos, e foi aprender a mexer no computador quando entrou aqui, alguns anos atrás. Da mesma forma, na época em que eu ministrava aulas de informática para uma entidade sem fins lucrativos, me deparei com situações muito piores do que os WTF’s que publico aqui. Mas considero covardia rir da falta de conhecimento tecnológico de um jovem que não tem condições de ter três refeições diárias…..

Do outro lado, temos aqueles ‘profissionais’, que por terem conseguido formatar o HD e instalar o Windows (ou, vá lá, o Linux…) na base do ‘PPC’ (Próximo, Próximo, Concluir) uma dúzia de vezes, já se consideram senhores do universo tecnológico, e todos aqueles que não sabem pra que serve o desfragmentador de disco são menos que vermes. Infelizmente, a maioria dos profissionais da área de informática pensam assim, e parecem se esforçar ao máximo em tornar a vida das pessoas mais complicada do que já é, apenas para que eles não tenham trabalho.

Tive um estagiário uma vez, que parecia não fazer parte dessa parcela maldita, mas que começou a mostrar seu verdadeiro ‘eu’ logo depois de ser contratado (um erro de julgamento do qual eu sempre me arrependo). Provavelmente inspirado pelas ‘técnicas de programação’ de um ‘profissional’ que passou por aqui antes dele (já estou preparando uns 20 WTF’s sobre esse ‘profissional’, aguardem!), a filosofia desse meu estagiário era se esforçar o mínimo possível em ser claro e prestativo, e reclamar dos usuários quando eles não soubessem interpretar a saída de um chkdsk. Para todos os sentidos, vou chamá-lo sempre de estagiário, mesmo que ele já estivesse contratado na época desse WTF.

Um pouco antes da saída dele, eu estava atolado de serviço, ficando até 13 horas por dia na frente do computador para resolver um problema crucial, e com isso algumas das tarefas de programação ficaram na mão dele. Nesse meio tempo, nós ainda usávamos o sistema antigo (base de dados DBF), e ele resolveu que iria criar um sistema em PHP para a Intranet que pegasse os dados em DBF, passasse para MySQL, e possibilitasse aos usuários da área comercial emitir relatórios.

Problemas:
- O sistema antigo existia a mais de 10 anos, e após tantas modificações o banco de dados estava uma zona (havia um arquivo com três colunas, chamadas de nome1, nome2, nome3). Algumas das interações necessárias para fazer aparecer… sei lá, o número do pedido, o nome do cliente, o endereço do cliente, os itens do pedido, e os dados de entrega, dependiam de umas dez tabelas;
- Esse estagiário conhecia o básico de PHP, e sabia no máximo dar uns ’selects’ simples no MySQL;
- A chave de todo o sistema era um programa que convertia bases de dados DBF para MySQL, que eu baixei para um outro projeto. Só que esse programa não fazia nenhuma verificação de duplicidade: se eu o executasse cinco vezes, eu encontraria as mesmas entradas do DBF repetidas cinco vezes no MySQL;

No final de todo o esforço, o programa foi considerado ‘perfeito’ pelo estagiário, e funcionava da seguinte maneira:

  1. Uma funcionária da área comercial acessaria pelo navegador um script PHP que apagaria toda a base de dados existentes;
  2. A mesma funcionária executaria o programa de conversão do DBF para o MySQL, e teria que lembrar de prencher todos os campos necessários para que ele funcionasse corretamente, inclusive os nomes das tabelas, a senha do root, o IP e a porta do servidor;
  3. Depois de encerrada a migração, tudo o que as funcionárias da área comercial precisavam fazer era acessar o script PHP que ele tinha criado, escolher quais tabelas seriam usadas na consulta por meio de um campo de checagem, digitar uma query SQL, clicar em próximo, e ver o relatório pronto.

Releiam o último trecho, por favor. Sim, é isso mesmo. Se um USUÁRIO quisesse saber quais foram as vendas do produto X para o estado de SP, elas teriam que escolher as tabelas ‘cliente’, ‘dados_cli’, ‘pedido’, e DIGITAR

cliente.codigo, cliente.nome, dados_cli.endereco, dados_cli.estado, pedido.codigo, pedido.cod_cliente, pedido.produto, pedido.quantidade

em um campo, e

pedido.produto = 'X' and dados_cli.estado = 'SP' and cliente.codigo = pedido.cod_cliente

em um outro campo. O resto do script era simplesmente um ‘Select $campo1 from $tabelas where $campo2′, e depois a montagem da página de relatório.

E ele queria que as funcionárias da área comercial fizessem isso. Percebam, as mesmas meninas que fazem a alegria daqueles que leêm esse blog.

Quando perguntei se ele estava de brincadeira, ainda tive que ouvir “Pô, mas se elas não souberem fazer algo tão simples, é só você dar um treinamento, e pronto. E outra, elas nem precisam digitar os nomes dos campos, podem usar o asterisco para puxarem todos os campos de uma só vez….”

O projeto foi abortado na hora, por razões óbvias.

Mas não acaba aí: dias depois, a supervisora me liga pra reclamar que o sistema que o estagiário criou era uma droga, e dava pau toda hora. Quando fui ver que sistema era esse, descobri que o estagiário tinha implantado o script à revelia, e depois de uma rápida explicação, não quis mais tirar dúvidas do pessoal.

Ele foi mandado embora? Não, ele acabou ficando, pois o Gerente Industrial precisava dele para um projeto de automação das máquinas da área de produção… Ele só acabou saindo quando arrumou um outro emprego, meses depois…..

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